terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nosso Pileque de Suco de Maracujá

Sou e sempre serei fã daqueles que me fazem rir. Adoro rir. E gosto por natureza séria e emburrada de soltar gargalhadas que desfaçam meu bico de boxeadora, madame, chefe de repartição pública e intolerável jeito gelado de ser. Quem não me conhece dificilmente imagina isso, quem me conhece sabe que sou fácil de agradar.  E temo entrar num estado de boberite aguda num grupo, porque dificilmente consigo sair. Além de ficar com abdomem dolorido, preciso entronizar por minutos, tentar mentalizar algo como a tortura de alguém querido para conseguir me controlar. Caio fácil na rede do humor. E além de tudo sou apaixonada por quem ter bom humor, que tem humor fino, quem solta frases sérias cheias de sentidos pervertidos e cínicos. Também gosto de rir das tiradas inocentes, muitas frases são tão puras e bem colocadas que é impossível resistir a elas. E sou do tipo que gargalha com vontade. E sempre vou rir dos que gargalham com vontade como eu, eles me inspiram a começar e admitir que é ótimo rir. Mas nem sempre fui assim. Minha educação pedia que eu me levasse a sério e eu  me levava. Até que me tornei amiga da minha pior inimiga, traduzindo, minha colega de classe que adorava rir das desgraças alheias. E bem, acho que nos tornamos amigas porque ela riu de mim quando tentei acertá-la com meu estojo escolar e o estojo ao invés de pegar sua cabeça caiu diretamente no bueiro. E justo aquele estojo de couro marron magistralmente trabalhado que ganhei de presente da tia Ditinha. Bem, depois que ela conseguiu parar de rir de mim, e foram minutos revoltantes e ao mesmo tempo divertidos, ela tentou pegar o estojo, mas acabou por empurrá-lo de vez, o que gerou uma nova onda de gargalhadas. Até que vencida e humilhada fui obrigada a rir junto com ela e foi então que nos tornamos amigas para sempre. Descobri com ela que quando rimos de nós mesmas conseguimos a simpatia dos outros. E foi com ela e na casa dela que tive maravilhosos pileques regados a suco de maracujá. Sim, éramos meninas, e nas festas de aniversário daquela casa sempre havia o suco de maracujá docinho e famoso da Tia Emilia, mãe da minha amiga.  E bem, a festa rolava, estávamos à mesa como não podia deixar de ser e era só tomar o suco de maracujá para desenfrearmos o que existia de mais espontâneo em nós. Há algo de sedutor no maracujá, assim como há muito sedução em alguém com bom humor. E se há um caminho para o coração no estômago, há também um caminho para profunda amizade no sorrir. Recentemente descobri em Nora Ephron uma ótima amiga. Não, ela não me conhece. Mas não consigo parar de rir das frases e histórias nos livros cunhados por ela. Sinto-me como se nos conhecêssemos há anos. E assim também é com o Mário Prata, o Jô Soares, a Barbara Gancia, e todos os deliciosos narradores das  experiências humanas, que parecem conhecer o mundo como conhecem suas próprias mazelas. E quem sabe rir de si mesmo, pode controlar o mundo, pode acreditar nisso. Ah, mas se você nunca tomou um porre de suco de maracujá, fica minha sugestão para sua próxima festa, o melhor é que não tem efeito colateral.

domingo, 24 de outubro de 2010

Amizade - Mesa e Barata

Falar de amizade é falar de amor. Daquele amor libertário, que não pode ser escondido, que pode ser romântico e piegas porque dependendo do amigo, é assim que funciona. Também pode ser um amor onde cabe palavrões e xingamentos porque seu amigo entende que é amado e que aqueles termos chulos não são para ele mas ele é o único que pode te ouvir falar palavrão sem mudar o conceito de que você é uma ótima cidadã, uma pessoa de família, educada em Sorbonne.E sim,  é para o amigo que são reveladas toda espécie de amor, o obsessivo, o platônico, o compulsivo, o introspectivo, o assanhado e mais toda palheta de tipos que só mesmo um amigo conhece quando você começa a falar de algo ou de alguém. Além de me sentir bem amando meus amigos porque eles são únicos e não preciso esconder minha afeição por aquele ou aquela figura controversa, me sinto muito amada por eles, afinal já falei de tudo e eles ainda não me abandonaram. E o que eu e todos meus amigos temos em comum é a paixão por comer. Sim, fiz um inventário de amigos ao longo da vida e nenhum deles tem aversão por comida ou por comer. Todos nós temos problemas para parar de comer. E se você também tem esse problema, provavelmente é ou será meu amigo. E sim, meus melhores momentos com amigos foi ao telefone ou à mesa. O telefone é o meio mais rápido para fazer uma confissão, uma busca e apreensão ou mesmo para ouvir a voz de um amigo que não está ao meu lado. Não, ainda não sei viver sem o telefone. Mesmo que toda a tecnologia me proporcione uma videoconferencia com todo e qualquer amigo, ainda assim não abrirei mão do telefone como meio mais rápido e seguro para espionagem e fonte de informações ao amigo. Contudo ainda me dedicarei à publicidade telefônica em outra oportunidade. Nesse momento, quero e preciso falar da mesa. Sim, é lá onde tudo é revelado entre uma garfada e outra, uma petiscada e outra, uma roubada de pão e outra. Muitas cenas reveladoras, muitas surpresas e verdadeiras guerras começaram ou terminaram em volta de uma mesa. A reunião podia ser de dois ou mais amigos, mas depois de nos sentarmos para comer e confraternizar sempre algo ou alguém será mais ou menos amigo em decorrência da celebração da amizade. Sim, porque nós, amigos apaixonados,  sempre tomamos partido a favor ou contra o amor ou o desafeto de nossos amigos. E lá, na mesa, independente do escondidinho, da macarronada, do pastel ou do sanduba do Estrela, ficaremos mais ou menos amigos de alguém. Por isso é sempre melhor estarmos à mesa...tenho certeza que você entende. Há uma chance de defesa para aqueles que comparecem à celebração. Bem, do jeito que estou falando você deve pensar que faço parte de alguma confraria ou máfia chamada amizade. Mas não, saiba você que minha família faz isso, meus amigos também, e creio que meus inimigos desconhecidos praticam em mesas longínquas. O amor da amizade é purificador. Você pode ser purificado nele ou consumido, depende de que material você é feito. Ainda assim, prefiro esse fogo a todos os outros, porque ele sempre será atraente e quente como aquele útero protetor da mãe. Recentemente, fui ao encontro de um amigo numa mesa que ele elogiou. O ambiente era bonito, bem localizado, a mesa tinha classe e o local servia um maravilhoso bolinho de queijo que me amigo não conseguia esquecer. E lá estávamos nós dois usufruindo da alegria de sermos amigos que adoram comer, quando mais uma amiga se juntou a nós, para intensificar as possibilidades de relacionamento em volta da mesa. E entre uma confissão, um comentário mordaz, uma filosofia de vida, um frequentador barulhento e luzes se acendendo, eis que em nossa mesa surgiu uma barata. Sim, cascuda, feia, com antenas dançantes e absolutamente intrometida e não credenciada. Isso me fez pensar que somos intolerantes à pessoas não queridas que se aproximam da nossa mesa num encontro entre amigos. Geralmente fazermos como nós naquela situação: cara de asco não disfarçado, seguida de um levante juntos e pedidos de  providências à qualquer autoridade mais próxima. Confesso que foi mais fácil nos livrarmos da barata do que seria nos livrarmos do último pisador de bola que casualmente pensasse em se juntar a nós. A que autoridade pediríamos socorro? Geralmente, a cara de asco ou de você não é bem-vindo resolve. Mas é incrível como deixamos de ser amigos, quando estamos entre amigos. E bem, para encurtar a história da barata na mesa, ela se foi e nós também para nunca mais. E aqui tenho duas conclusões. A profissional é que se um cliente encontra uma barata no seu estabelecimento, independente do seu prejuízo, dê um jeito para ele volte. Pior será se ele não voltar, pois muitos não "voltarão" com ele. A emocional é que amizade pode ser a arma mais cruel contra alguém que não foi amigo. Então, não importa qual seja a mesa, dê um jeito de ser querido nela.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um canto escuro em outubro

A primavera me faz bem e também me faz mal . Adoro os dias iluminados, gosto do ar frio ficando quente e também da abundância de flores. Aquela variedade sem fim de aves, insetos e sons explodindo como se o mundo tivesse acabado de começar a funcionar. Nasci na primavera do hemisfério sul, no meio dessa alegria e exagerada revelação da natureza como se nada houvesse além de viver. Parece que nessa época tudo canta ou tem melodia, inclusive a primavera faz o mal humor sentir-se deslocado e careta, até ele precisa rir de si mesmo. O mal da primavera para mim está na minha reação a ela. Rinite inevitável, dia sim dia não, hora sim hora não, ambiente sim, ambiente não. Além da alergia à alegria, minha melancolia também fica feliz. Não consigo um canto escuro em Outubro para sofrer, me acabar e ressurgir como uma boa escorpiana do hemisfério norte. Lá a prática deve ser diária, afinal escorpianos tem o tom do outono. Adoro outono. E sou vira-casaca porque também adoro a primavera ainda que seja alérgica a ela. E sim, não consigo me virar no avesso na primavera porque tudo parece dissonante. Como ficar miserável  num dia iluminado e cheio de cores? Como chorar quando as pessoas sorriem e são charmosas tão naturalmente? Como não perdoar os poetas galantes, esses que são embriagados pelos ares primaveris? Minha vingança tem sido ler os cínicos e rir do sarcasmo embolorado de algumas críticas, como que para lembrar-me que a vida não é exatamente só flores e que continuo envelhecendo apesar de completar mais uma primavera. Também não perdi minha irritação mas até ela tem durado pouco nesse clima festivo. Adoraria ser mordaz e pessimista, mas não consigo. Mesmo quando mais uma amiga velhinha tenha partido, mesmo quando uma borboleta famosa me disse estar com câncer, mesmo com a grana curta e pouco tempo para conseguir bater as metas, mesmo que meu amor não tenha ligado, meu poder é nenhum frente às maravilhas que tenho visto e sentido. Não posso deixar de agradecer os prazeres trufados da vida natural neste momento. E entendo que com muitos motivos para chorar ainda tenho vários outros motivos para celebrar a vida como um milagre curto, esplêndido e perfumado como a primavera.

domingo, 17 de outubro de 2010

Crônica 001 - setembro/2010

Estou numa ansiedade destrutiva. Não é daquele tipo de ansiedade que se corrige trocando a fonte do texto porque Times New Roman irrita, mas daquele tipo de ansiedade que faz você virar no avesso procurando algo pelo que se preocupar de verdade. A não aceitação de si mesma faz você rosnar para qualquer maluco que insista em ser simpático rindo para você. Faz você procurar pêlo em ovo, faz você odiar todo e qualquer contato com o bonitão que te adicionou no Messenger porque você está horrível, e ainda que esteja off line ele pode descobrir isso. A minha ansiedade de insatisfação coloca meu nome na lista das mais intragáveis, horrendas, pérfidas e cheirosas criaturas da sociedade das mal amadas. Digo cheirosas porque não posso pensar em sentir fedor, mesmo que seja intelectual. Digo mal amada porque sempre damos esse nome para aquelas não queridas por nós. E como hoje não sou querida por mim, estou na lista. Bem, diria Dr Cezar, um maravilhoso consultor para assuntos da psique, é necessário um pouco de amor próprio. Sim, por isso mesmo estou escrevendo. Pelo menos nas letras não corro o risco físico, afinal, meu flagelo é moral. E sim, este texto é dedicado a você que já ficou muito ansiosa tentando entender o que realmente te chateia. Se tudo, ou o conjunto das partes que você não gosta, que neste momento são quase todas. Neste desabafo rasgado e forte para o horário das 21, pretendo identificação com você mulher pós-moderna que não se interessa por casamento, filhos ou brincadeiras de casinha, mas que ao mesmo tempo acha lindo tudo isso nas outras. Para você que chora quando um homem chora e ao mesmo tempo culpa Deus por ter feito Adão primeiro. E claro, para você que como eu adora a companhia masculina principalmente se você pode seduzi-la sendo apenas mulher. Pois é, ainda não sei se sofro por me assumir tão desconexa, ou se sofro por entender que tenho pânico da conexão, mesmo adorando os choques conseqüentes dela. E também sofro pelos meus modelos favoritos, Marília Gabriela vestida de Carrie Bradshaw com a despretensão da Madre Tereza de Calcutá. Ou Sonia Braga, vestida de Sissi, sentada na cadeira da Condoleezza Rice. E ainda Elizabeth de Orgulho e Preconceito, vestida de Madonna, dando curso de literatura comparada. Bem, são todos ótimos modelos, mas não posso vivê-los ao mesmo tempo e querendo ser tudo isso e não sendo, fico ansiosa. Bem, se você se identificou com qualquer uma de minha nóias, saiba que fico feliz. Afinal, nada como poder repartir com uma amiga nossa impossibilidade de perfeição num momento de confusão hormonal.
E também quero agradecer pela possibilidade de expandir meus horizontes de gênero a você homem que se aventurou por algum motivo escuso ler este texto. Ah, se você sorriu, é porque tenho toda razão.