Falar de amizade é falar de amor. Daquele amor libertário, que não pode ser escondido, que pode ser romântico e piegas porque dependendo do amigo, é assim que funciona. Também pode ser um amor onde cabe palavrões e xingamentos porque seu amigo entende que é amado e que aqueles termos chulos não são para ele mas ele é o único que pode te ouvir falar palavrão sem mudar o conceito de que você é uma ótima cidadã, uma pessoa de família, educada em Sorbonne.E sim, é para o amigo que são reveladas toda espécie de amor, o obsessivo, o platônico, o compulsivo, o introspectivo, o assanhado e mais toda palheta de tipos que só mesmo um amigo conhece quando você começa a falar de algo ou de alguém. Além de me sentir bem amando meus amigos porque eles são únicos e não preciso esconder minha afeição por aquele ou aquela figura controversa, me sinto muito amada por eles, afinal já falei de tudo e eles ainda não me abandonaram. E o que eu e todos meus amigos temos em comum é a paixão por comer. Sim, fiz um inventário de amigos ao longo da vida e nenhum deles tem aversão por comida ou por comer. Todos nós temos problemas para parar de comer. E se você também tem esse problema, provavelmente é ou será meu amigo. E sim, meus melhores momentos com amigos foi ao telefone ou à mesa. O telefone é o meio mais rápido para fazer uma confissão, uma busca e apreensão ou mesmo para ouvir a voz de um amigo que não está ao meu lado. Não, ainda não sei viver sem o telefone. Mesmo que toda a tecnologia me proporcione uma videoconferencia com todo e qualquer amigo, ainda assim não abrirei mão do telefone como meio mais rápido e seguro para espionagem e fonte de informações ao amigo. Contudo ainda me dedicarei à publicidade telefônica em outra oportunidade. Nesse momento, quero e preciso falar da mesa. Sim, é lá onde tudo é revelado entre uma garfada e outra, uma petiscada e outra, uma roubada de pão e outra. Muitas cenas reveladoras, muitas surpresas e verdadeiras guerras começaram ou terminaram em volta de uma mesa. A reunião podia ser de dois ou mais amigos, mas depois de nos sentarmos para comer e confraternizar sempre algo ou alguém será mais ou menos amigo em decorrência da celebração da amizade. Sim, porque nós, amigos apaixonados, sempre tomamos partido a favor ou contra o amor ou o desafeto de nossos amigos. E lá, na mesa, independente do escondidinho, da macarronada, do pastel ou do sanduba do Estrela, ficaremos mais ou menos amigos de alguém. Por isso é sempre melhor estarmos à mesa...tenho certeza que você entende. Há uma chance de defesa para aqueles que comparecem à celebração. Bem, do jeito que estou falando você deve pensar que faço parte de alguma confraria ou máfia chamada amizade. Mas não, saiba você que minha família faz isso, meus amigos também, e creio que meus inimigos desconhecidos praticam em mesas longínquas. O amor da amizade é purificador. Você pode ser purificado nele ou consumido, depende de que material você é feito. Ainda assim, prefiro esse fogo a todos os outros, porque ele sempre será atraente e quente como aquele útero protetor da mãe. Recentemente, fui ao encontro de um amigo numa mesa que ele elogiou. O ambiente era bonito, bem localizado, a mesa tinha classe e o local servia um maravilhoso bolinho de queijo que me amigo não conseguia esquecer. E lá estávamos nós dois usufruindo da alegria de sermos amigos que adoram comer, quando mais uma amiga se juntou a nós, para intensificar as possibilidades de relacionamento em volta da mesa. E entre uma confissão, um comentário mordaz, uma filosofia de vida, um frequentador barulhento e luzes se acendendo, eis que em nossa mesa surgiu uma barata. Sim, cascuda, feia, com antenas dançantes e absolutamente intrometida e não credenciada. Isso me fez pensar que somos intolerantes à pessoas não queridas que se aproximam da nossa mesa num encontro entre amigos. Geralmente fazermos como nós naquela situação: cara de asco não disfarçado, seguida de um levante juntos e pedidos de providências à qualquer autoridade mais próxima. Confesso que foi mais fácil nos livrarmos da barata do que seria nos livrarmos do último pisador de bola que casualmente pensasse em se juntar a nós. A que autoridade pediríamos socorro? Geralmente, a cara de asco ou de você não é bem-vindo resolve. Mas é incrível como deixamos de ser amigos, quando estamos entre amigos. E bem, para encurtar a história da barata na mesa, ela se foi e nós também para nunca mais. E aqui tenho duas conclusões. A profissional é que se um cliente encontra uma barata no seu estabelecimento, independente do seu prejuízo, dê um jeito para ele volte. Pior será se ele não voltar, pois muitos não "voltarão" com ele. A emocional é que amizade pode ser a arma mais cruel contra alguém que não foi amigo. Então, não importa qual seja a mesa, dê um jeito de ser querido nela.
Bolinhos de queijo a parte, a ocasião pareceu a invasão bárbara, mudando radicalmente as características do império interpessoal que se estabeleceu ali. E, apesar das várias tentativas de reestabelecer a organização social entre os elementos da mesa, o fato derrubou todas as estruturas. Estranho! Foi assim que tudo sucedeu-se. Pessoas estranhos, ameaçadas por um estranho e estranhando umas as outras pela estranhez estranhada. A baratinha, praticamente a alegoria desta história, mostrou apenas que quando os amigos se estranham qualquer "estranho" pode fazer saltar e fugir todos a mesa.
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