terça-feira, 5 de abril de 2011

Férias de Mim


Meu modelo de relaxamento tem sido, esquecer quem eu sou para lembrar-me de quem sou.
Não é um modelo fácil, por isso preciso de cenário, conteúdo e matéria diferenciados. Inclusive a primeira coisa que faço ao chegar à antítese do meu cotidiano é ser eu mesma ao cubo...sim, proteção ao ego e a estrutura familiar de conforto. Não é fácil deixar de sermos quem somos, mas se não o fizermos não relaxamos e, por conseguinte, não entendemos e não poderemos desfrutar da dor e da delicia de sermos nós mesmos. Muito louco esse sistema de proteção e negação do ego. Mas deixando a psicologia parcialmente de lado, fui para o mar, para o mato, para o sol. E quando cheguei lá fiquei maravilhada e ao mesmo tempo incomodada com tanta coisa boa. Ao entrar em contato com o primitivo me vejo completamente urbana, como se tudo fosse lindo e completamente estranho e insuficiente para minha alegria. Já sentiu isso? O cenário é tão perfeito que você sente que não foi feito para o papel? Então sabe o que sinto no paraíso. São dois dias para me acomodar. Tenho todo tipo de neura com os pernilongos, aranhas, formigas, baratas e qualquer comunidade de inseto que viva pacificamente no local. Me pergunto se eles não “se tocam” que cheguei e não to a fim de conversa e nem aproximação. Não sei exatamente porque mas essa classe adora me bajular, fazendo festa, com comitê de recepção. Penso que eles sabem que detesto. E exatamente por isso é mais legal fazer festa para mim.
Pois bem, depois de adaptada, mantendo meus inseticidas e desinfetantes a postos, protejo-me do sol, apesar de precisar dele desesperadamente. Fator 50 pelo lombo, busto e barriga, sem esquecer dobras de neném. Vermelho em mim nunca foi desejado. Daí sigo para a areia que quero amassar e o mar que quero invadir. Mas tudo com cautela, que é para eles não perceberem minhas más intenções. E lá vou eu, uma invasora e ladra do espaço natural, bicho de outra região. Mais ou menos um urso tomando banho no mar equatorial, entende? Algo assim fora de questão. E quando entro, algo em meus DNA lembram-se que não sou assim tão estranha ao ambiente. A areia sorri para minhas pegadas e o mar vem de mansinho  me lamber e dançar comigo. Tudo parece como da última vez em que nos vimos e somos novamente um, integrados, mulher e paraíso. Ai que delicia, lembro exatamente da selvagem que vive em mim e esqueço toda minha urbanidade. “Prazer estar contigo...um brinde ao destino...será que o teu signo tem a ver com o meu...”
Assim é, desconstruo minha personagem e assumo sem medo. E depois de 5 dias, já estou conversando com a aranha, tolerando a formiga e não socando a barata. Já respeitamos espaços. Agora, porque é que eu tava nervosa mesmo antes de chegar ao paraíso? Hã? Era isso...acho que não...estou confusa. De frente para toneladas de areia e azul sem fim o que pode ser maior do que o poder natural? Qual é mesmo minha contribuição para o planeta? Ou porque me preocupo com coisas que estão escondidas mas que são trazidas pela ressaca do mar? Não sei. E por isso relaxo. Não há exatamente nada fora do lugar ou fora da hora, da estação, do dia. Posso dormir. E ao acordar o mar estará lá, as árvores também, e as formigas terão juntado mais terra. Quanto a quem sou, descubro que sou teimosa e brigo com o mar, pois ele me manda para terra e volto para ele sempre, só para provar que tenho opinião e dignidade. Mas isso é tudo. Aliás vou dormir...o mundo tem girado como antes e Deus tem olhado para ele com ternura.


 



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