Sou e sempre serei fã daqueles que me fazem rir. Adoro rir. E gosto por natureza séria e emburrada de soltar gargalhadas que desfaçam meu bico de boxeadora, madame, chefe de repartição pública e intolerável jeito gelado de ser. Quem não me conhece dificilmente imagina isso, quem me conhece sabe que sou fácil de agradar. E temo entrar num estado de boberite aguda num grupo, porque dificilmente consigo sair. Além de ficar com abdomem dolorido, preciso entronizar por minutos, tentar mentalizar algo como a tortura de alguém querido para conseguir me controlar. Caio fácil na rede do humor. E além de tudo sou apaixonada por quem ter bom humor, que tem humor fino, quem solta frases sérias cheias de sentidos pervertidos e cínicos. Também gosto de rir das tiradas inocentes, muitas frases são tão puras e bem colocadas que é impossível resistir a elas. E sou do tipo que gargalha com vontade. E sempre vou rir dos que gargalham com vontade como eu, eles me inspiram a começar e admitir que é ótimo rir. Mas nem sempre fui assim. Minha educação pedia que eu me levasse a sério e eu me levava. Até que me tornei amiga da minha pior inimiga, traduzindo, minha colega de classe que adorava rir das desgraças alheias. E bem, acho que nos tornamos amigas porque ela riu de mim quando tentei acertá-la com meu estojo escolar e o estojo ao invés de pegar sua cabeça caiu diretamente no bueiro. E justo aquele estojo de couro marron magistralmente trabalhado que ganhei de presente da tia Ditinha. Bem, depois que ela conseguiu parar de rir de mim, e foram minutos revoltantes e ao mesmo tempo divertidos, ela tentou pegar o estojo, mas acabou por empurrá-lo de vez, o que gerou uma nova onda de gargalhadas. Até que vencida e humilhada fui obrigada a rir junto com ela e foi então que nos tornamos amigas para sempre. Descobri com ela que quando rimos de nós mesmas conseguimos a simpatia dos outros. E foi com ela e na casa dela que tive maravilhosos pileques regados a suco de maracujá. Sim, éramos meninas, e nas festas de aniversário daquela casa sempre havia o suco de maracujá docinho e famoso da Tia Emilia, mãe da minha amiga. E bem, a festa rolava, estávamos à mesa como não podia deixar de ser e era só tomar o suco de maracujá para desenfrearmos o que existia de mais espontâneo em nós. Há algo de sedutor no maracujá, assim como há muito sedução em alguém com bom humor. E se há um caminho para o coração no estômago, há também um caminho para profunda amizade no sorrir. Recentemente descobri em Nora Ephron uma ótima amiga. Não, ela não me conhece. Mas não consigo parar de rir das frases e histórias nos livros cunhados por ela. Sinto-me como se nos conhecêssemos há anos. E assim também é com o Mário Prata, o Jô Soares, a Barbara Gancia, e todos os deliciosos narradores das experiências humanas, que parecem conhecer o mundo como conhecem suas próprias mazelas. E quem sabe rir de si mesmo, pode controlar o mundo, pode acreditar nisso. Ah, mas se você nunca tomou um porre de suco de maracujá, fica minha sugestão para sua próxima festa, o melhor é que não tem efeito colateral.

Eu já tomei esse pilequinho e as risadas são instantâneas!!!
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